25 março, 2010

Henrique de Hériz - "Mentira"

“Mentira” (Ed. Dom Quixote), um dos grandes romances espanhóis dos últimos anos, é uma história, poderosa, contada por duas mulheres: Isabel (a mãe) antropóloga especialista em ritos funerários, dada como morta na selva da Guatemala depois de esquecer a mochila com a documentação junto de um cadáver feminino, que opta por viver a mentira da sua morte; e Serena (a filha) que pesquisa e escreve histórias da família (histórias de enganos), ao mesmo tempo que lida com os irmãos e com a morte da mãe.
Isabel, ao optar por viver a própria morte sem estar morta, evita regressar a uma vida junto da família, que “se parecia cada vez menos com a vida”, a um emaranhado de enganos e mentiras, “mentiras que não podia denunciar depois de ter contribuído para a sua criação durante tantos anos com o seu silêncio” (pág. 93). “O silêncio é às vezes uma das formas mais sofisticadas da mentira” (pág. 147).
Indignada por os filhos não terem esclarecido o equívoco da sua morte, aquando do reconhecimento do cadáver “supõe-se que os filhos estão geneticamente preparados para reconhecer a mãe” (pág.146) regressa, decidida a acabar com a mentira da sua morte e com o emaranhado de mentiras das vidas passadas do marido Júlio e do pai Simón, que sempre silenciou.
“Tive muito tempo para pensar …. e agora sei que calei demasiado, que muitas vezes não vos disse o que devia dizer-vos… levei tempo a voltar porque estava indignada por não terem sido capazes de reconhecer o meu corpo “ (pág. 461).
Serena investiga o passado, detecta lapsos e procura a verdade.
Só “a mamã a descobrir o valor medicinal da verdade” (pág. 460) desvendará todos os mistérios
.
Posted by Picasa

Sem comentários:

Enviar um comentário