22 abril, 2010

Ian McEwan - "Solar"

Solar” (Ed. Gradiva) último romance de Ian McEwan, é uma comédia sobre a fragilidade humana e um dos grandes problemas do mundo moderno – o aquecimento global.
Recorrendo com mestria ao humor e à sátira, o autor centra a acção do romance no protagonista Michael Beard (calvo, baixo, gordo, inteligente, anedótico, devastado), grande conhecedor das energias alternativas, físico galardoado com o Prémio Nobel aos trinta e poucos anos, que a partir daí se limita a viver à sombra dos louros, participando apenas em conferências, seminários e entrega de prémios.
No primeiro capítulo do livro, com 53 anos, depois de quatro casamentos falhados (nenhum durara mais de seis anos), um rol de infidelidades e total desinteresse pelo trabalho, encontra-se a braço com o colapso do quinto casamento. Só que desta vez era a mulher que o traía de forma flagrante, sem remorsos, com o empreiteiro que fizera obras em sua casa, e ele descobria, no seu íntimo, momentos intensos de vergonha e nostalgia “nenhum o tinha rebaixado tanto … provocado tamanho aumento de peso e uma tal loucura secreta…” ele que “tinha sido um mulherengo mentiroso, tivera o que merecia … que havia de fazer agora, para além de aceitar o castigo? A que deus iria apresentar as suas desculpas?” Tinha de recuperar a mulher – que agora considerava perfeita – e nunca lhe parecera tão desejável.
O confronto entre ele “cheio de refegos de banhas, fracalhote, incapaz de fazer oito elevações consecutivas” e o amante da mulher “com uma constituição de trabalhador da construção, quase vinte centímetros mais alto e vinte anos mais novo” é hilariante.
Para fugir à humilhação aceita um convite para uma expedição ao Pólo Norte. O grupo integra artistas e cientistas preocupados com as alterações climáticas. Na viagem vive uma série de situações embaraçosas e burlescas genialmente descritas pelo autor.
Regressa a casa decidido a desmantelar o cenário do seu casamento “cheio de remorsos, lamentando não saber o truque para fazer a mulher amá-lo, mas resignado”. Na sala encontra um homem no sofá, com o cabelo a pingar, de roupão vestido (o seu roupão) e não era o empreiteiro… vinte minutos depois está morto com uma pancada na cabeça. Não sabia o que fazer. Depois soube.
Nos capítulos seguintes ele continua incapaz de alterar vícios e rotinas, a ser “um pateta temerário, com hábitos muito arreigados, nem um nadinha mais sensato do que havia sido aos vinte e cinco anos, nenhumas perspectivas de melhoras” que não resiste ao plágio, que vomita a seguir a uma conferência sobre energias limpas, mulherengo, com as mesmas preocupações abstractas “o seu peso, o coração que bate com demasiada irregularidade, as tonturas quando se punha de pé, as dores nos joelhos, nos rins, no peito, o cansaço sufocante, uma mancha vermelha no pulso”, que considera como crimes contra a sua pessoa.
Sarcástico. Genial.
Mais sobre o autor aqui.
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