15 novembro, 2010

Bom dia, senhor vizinho

“Os bons vizinhos fazem parte da família.”(1)
Onde nasci, numa zona montanhosa do interior português, fria, agreste, de invernos rigorosos e verões escaldantes, os vizinhos estão sempre presentes, atentos, disponíveis, firmes como rochas, substitutos dos nossos familiares ausentes, confidentes, protectores. Ali os vizinhos são amigos para toda a vida. (Claro que há excepções, mas essas não me interessam).
Onde cresci, num país banhado por um oceano de águas cristalinas e quentes, os vizinhos eram amigos, sempre de portas abertas para um convívio animado numa simples varanda, num terraço fresco ou num quintal alargado. Eram ouvintes atentos para um desabafo, um desalento, uma confidência. Eram companheiros e amigos para toda a vida. Nada se escondia aos vizinhos. Eles estavam sempre atentos, sem se imiscuírem na nossa vida, controlavam discretamente e opinavam acertadamente, sugeriam, protegiam. Nunca condenavam. Apenas aconselhavam.
(A fuga apressada do país em guerra desfez esses laços, em alguns casos irremediavelmente).
Onde vivo agora, os elevadores são o único lugar onde nos cruzamos com os vizinhos. As relações são demasiado cordiais e o simples bom dia é dado de olhos no chão, envergonhadamente ou indiferentemente, evitando, assim, que vejamos sequer a cor dos olhos de quem vive tão próximo de nós. Ao nosso lado, vive-se, morre-se e ninguém pede ajuda, ninguém pede consolo. Até os soluços são abafados.
Nas reuniões de condomínio, demasiado formais, ouvimos nomes que esquecemos de imediato, sem tempo para os associarmos ao piso e apartamento. As conversas são informais, frias, distantes. No final todos regressam às suas casas estanques, para continuarem a viver fechados ao convívio e à partilha, numa mesquinhez histérica e irracional.
Que tristeza!
(1) Provérbio português

2 comentários:

  1. Também vim de um país onde as portas da rua estavam sempre abertas...o que me marcou muito, aqui, foi o ter de espreitar primeiro pelo "buraquinho" quem batia à porta! Um abraço gr.

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  2. Olá Cris,
    Bem-vinda. Também a mim me marcou muito e continuo a não aceitar esta forma de viver, mas, há que fazer um esforço e seguir... vivendo.
    Abraço.

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